quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Evangelho da Verdade


O EVANGELHO da Verdade é alegria para aqueles que receberam do Pai da verdade a graça de conhecê-lo através da força do Logos, que veio do Pleroma e que está no pensamento e na mente do Pai; Ele é o chamado "Salvador", pois é o nome da obra que Ele deve realizar pela redenção daqueles que não conheceram o Pai. O nome do evangelho é a manifestação da esperança, porque é a descoberta daqueles que o buscam, pois o Todo buscou aquele de quem emanou. Vejam, o Todo estava dentro dele, esse uno ilimitado, inconcebível, que é superior a qualquer pensamento.
Esta ignorância a respeito do Pai trouxe terror e medo. E o terror se tornou denso como neblina, de modo que ninguém podia enxergar. Por causa disso, o erro se fortaleceu. Mas o erro trabalhou em sua substância hylica em vão, porque não conhecia a verdade. Estava numa forma moldada enquanto preparava, em poder e em beleza, uma imitação da verdade. Isto, porém, não humilhou o ilimitável e inconcebível. Pois este terror e esta ignorância e esta figura falsa eram nada, enquanto que esta verdade estabelecida é imutável, imperturbável e perfeitamente bela.
Por esta razão, não levem muito à serio o erro. Pois, como não possuía raiz, estava imerso na neblina com respeito ao Pai, ocupado na preparação de obras, esquecimentos e medos, a fim de, por meio deles, enganar os do meio e os aprisionar. O esquecimento do erro não foi revelado. Não se tornou luz ao lado do Pai. O esquecimento não existia com o Pai, embora tenha se originado por causa dele. O que existe nele é o conhecimento, que foi revelado para que o esquecimento pudesse ser destruído e para que o Pai pudesse ser conhecido. Como o esquecimento existia porque o Pai não era conhecido, quando o Pai chegar a ser conhecido, a partir deste momento o esquecimento deixará de existir.
Este é o evangelho daquele que é buscado, que Ele revelou aos perfeitos, graças à demência do Pai, como o mistério oculto, Jesus Cristo. Por seu intermédio, Ele iluminou aqueles que estavam na escuridão por causa do esquecimento. Ele os iluminou e indicou-lhes um caminho. E esse caminho é a verdade que Ele lhes ensinou. Por esta razão, o erro se enfureceu com Ele, e por isso o perseguiu. Ele foi perturbado por Ele, e por isso lhe tirou a força. Ele foi pregado numa cruz. Ele se tornou fruto do conhecimento do Pai. Ele, porém, não os destruiu por terem comido o fruto. Em vez disso, fez com que aqueles que o comeram se alegrassem com a descoberta.
E quanto a Ele, encontrou-os nele mesmo, e eles O encontraram neles mesmos, o uno ilimitado e inconcebível, esse Pai perfeito que criou o Todo, em quem o Todo está, e de quem o Todo necessita, já que Ele reteve em si a perfeição deles, a qual não deu ao Todo. O Pai não tinha inveja. Em verdade, que inveja pode-ria existir entre Ele e seus membros? Pois, mesmo se o éon tivesse recebido sua perfeição, eles não seriam capazes de se aproximar da perfeição do Pai, porque Ele reteve sua perfeição em si mesmo, dando-a a eles como uma forma de voltar para Ele e como um conhecimento único em perfeição. Foi Ele quem ordenou o Todo e em quem o Todo existia e de quem o Todo necessitava. Como alguns não O conhecem, ele deseja que eles O conheçam e que O amem. Pois do que é que o Todo precisaria, senão do conhecimento do Pai?
Ele se tornou um guia, tranqüilo e paciente. Dentro de uma escola Ele apareceu e falou a palavra, como um mestre. Aqueles que se consideravam sábios, quiseram testá-lo. Mas ele os dispensou como pessoas de cabeça vazia. Eles o odiaram porque na realidade não eram sábios. Depois de todos estes, vieram também as criancinhas, que possuem o conhecimento do Pai. Quando se fortaleceram, foram lhes ensinados os aspectos da face do Pai. Elas reconheceram e foram reconhecidas. Elas foram glorificadas e glorificaram. O livro vivo dos viventes se manifestou no coração delas, o livro que foi escrito no pensamento e na mente do Pai e, desde antes da fundação do Todo, está naquela parte incompreensível dele.
Este é o livro que ninguém considerou possível pegar, pois estava reservado para aquele que, ao pegá-lo, seria morto. Nenhum daqueles que acreditavam na salvação foi capaz de manifestar-se antes que aquele livro aparecesse. Por essa razão, Jesus, o misericordioso e fiel, aceitou pacientemente o sofrimento para pegar esse livro, pois sabia que sua morte significaria vida para muitos. Assim como no caso de um testamento que ainda não foi aberto, a fortuna do falecido senhor da casa permanece oculta, assim também acontece com o Todo, que esteve oculto enquanto o Pai do Todo estava invisível e único em si mesmo, foi quem todo o espaço se origina. Por esta razão Jesus apareceu. Ele tomou aquele livro para si. Ele foi pregado na cruz. Ele afixou o édito do Pai à cruz.
Oh, que ensinamento grandioso! Ele até se sujeita à morte, apesar de estar revestido de vida eterna. Tendo se despojado desses farrapos perecíveis, ele vestiu a incorruptibilidade, que ninguém seria capaz de lhe tirar. Tendo penetrado no território vazio dos medos, ele passou diante daqueles que estavam nus por causa do esquecimento, sendo tanto conhecimento como perfeição, proclamando as coisas que estão no coração do Pai, Ele se tornou a sabedoria daqueles que foram instruídos. Mas aqueles que ainda devem ser ensinados, os vivos que estão inscritos no livro dos viventes, aprendem sobre si mesmos, recebendo ensinamentos do Pai, para voltar para Ele novamente.
Já que a perfeição do Todo está no Pai, é necessário que o Todo suba até Ele. Portanto, se alguém possui o conhecimento, recebe o que lhe pertence, atraindo-o para si. Pois aquele que é ignorante, é deficiente, e é uma grande deficiência, pois lhe falta aquilo que o tornaria perfeito. Como a perfeição do Todo está no Pai, é necessário que o Todo suba até Ele para que cada um receba as coisas que lhe pertencem. Ele as registrou antecipadamente, tendo-as preparado para serem dadas àqueles que vieram dele.
Aqueles cujo nome Ele conhecia primeiro foram, por fim,chamados, portanto aquele que possui conhecimento é aquele cujo nome o Pai pronunciou. Pois aquele cujo nome não foi pronunciado é ignorante. Em verdade, como é que alguém ouvirá se seu nome não foi pronunciado? Pois aquele que permanece ignorante até o fim é uma criatura do esquecimento e perecerá assim. Se não fosse assim, por que estes miseráveis não têm nome, por que não foram chamados? Portanto, se alguém possui conhecimento, é um ser que vem do alto. Se ele foi chamado, ele ouve, responde, e se volta para aquele que o chamou e sobe até Ele e sabe de que maneira é chamado. Possuindo o conhecimento, faz a vontade daquele que o chamou. Ele deseja agradá-lo e encontra a paz. Ele recebe um determinado nome. Aquele que, portanto, tiver conhecimento, sabe de onde veio e para onde vai. Ele sabe isso como uma pessoa que, tendo ficado embriagada, rejeitou sua
embriaguez e, ao voltar a si, restaurou aquilo que lhe pertencia.
Ele desviou muitos do erro. Ele foi na frente deles para os lugares aos quais pertenciam, de onde eles haviam saído quando erraram por causa da profundidade daquele que cerca todos os lugares, enquanto não há nada que o cerque. Foi uma grande maravilha que eles estivessem no Pai sem o conhecerem e que fossem capazes de partir por sua própria vontade, já que não eram capazes de conter e conhecer aquele em quem estavam, pois em verdade a vontade dele não saiu dele. Pois Ele a revelou como um conhecimento com o qual todas as suas emanações concordam, ou seja, o conhecimento do livro dos vivos que Ele revelou aos éons como suas letras, expondo-lhes que não são meramente vogais nem consoantes, como uma leitura sem sentido; ao contrário, são letras que transmitem a verdade. São pronunciadas somente quando conhecidas. Cada letra é uma verdade perfeita como um livro perfeito, pois são letras escritas pela mão da unidade, já que o Pai as escreveu para os éons, para que eles, por meio das letras, pudessem vir a conhecer o Pai.
Enquanto sua sabedoria medita sobre o Logos, e já que seu ensinamento o expressa, seu conhecimento foi revelado. Sua honra é uma coroa sobre sua cabeça. Como sua alegria concorda com o conhecimento, sua glória o exaltou. E revelou sua imagem. Obteve sua paz. Seu amor tomou forma corpórea. Sua confiança o abraçou. Portanto, o Logos do Pai vai para o Todo, sendo o fruto de seu coração e a expressão de sua vontade. Ele sustenta o Todo. Ele escolhe e também toma a forma do Todo, purificando-o e fazendo com que volte ao Pai e à Mãe, a Jesus da suprema doçura. O Pai abre seu peito, mas seu peito é o Espírito Santo. Ele revela seu ser oculto que é o seu filho, para que, através da compaixão do Pai, os éons possam conhecê-lo, concluir sua busca esgotante pelo Pai e repousar nele, sabendo que isto é o repouso. Depois que Ele completou aquilo que estava incompleto, dispensou a forma. A forma disto [isto é, aquilo que estava incompleto] é o inundo, aquilo que Ele ser-viu. Pois onde existe a inveja e a luta, existe imperfeição; mas onde existe unidade, existe perfeição. Como esta imperfeição aconteceu porque o Pai não era conhecido, quando o Pai for conhecido, a imperfeição no mesmo instante cessará de existir. Como a ignorância de alguém desaparece quando obtém conhecimento, e como as trevas desaparecem quando aparece a luz, assim também a imperfeição é eliminada pela perfeição. Certamente, a partir desse momento, a forma não se manifesta mais, mas será dissolvida na fusão com a unidade, pois agora suas obras estão misturadas. Com o tempo, a unidade completará o espaço. Por meio da unidade cada um se entenderá. Por meio do conhecimento se purificará da diversidade com uma visão da unidade, consumindo a matéria dentro de si mesmo como o fogo e a escuridão são devorados pela luz, a morte pela vida.
Certamente, se essas coisas aconteceram a cada um de nós, cabe-nos pensar sobre o Todo para que a casa se torne santa e silenciosa para acolher a unidade. Da mesma maneira que pessoas que se mudaram de uma vizinhança, se elas possuem vasos imprestáveis, normal-mente os quebram. No entanto, o dono da casa não sofre com a perda, mas se rejubila, pois no lugar desses vasos defeituosos terá aqueles que são completamente perfeitos. Pois este é o julgamento que veio do alto e que julgou cada pessoa, uma espada desembainhada de dois gumes que corta deste e daquele lado. Quando Ele apareceu, isto é, o Logos, que está no coração daqueles que o pronunciam — não era apenas um som mas se tornou um corpo — uma grande perturbação ocorreu no meio dos vasos, pois alguns tinham sido esvaziados, outros enchidos; alguns foram guardados, outros descartados; alguns foram purificados, outros quebrados. Todos os espaços foram abalados e perturbados pois não possuíam ordem nem estabilidade. O erro foi perturbado sem saber o que fazer. Ficou preocupado; lamentou-se, ficou fora de si porque não sabia de nada. Quando o conhecimento, que é sua abolição, aproximou-se dele com todas as suas emanações, o erro ficou vazio, já que não havia nada dentro dele. Apareceu a verdade; todas as suas emanações o reconheceram. Saudaram o Pai com um poder que é completo e que as liga a Ele. Pois cada um ama a verdade porque a verdade é a boca do Pai. Sua língua é o Espírito Santo, que o liga à verdade, afixando-o à boca do Pai pela sua língua, na ocasião em que ele receberá o Espírito Santo.
Esta é a manifestação do Pai e sua revelação a seus éons. Ele revelou seu ser oculto e o explicou. Pois quem é que existe senão o próprio Pai? Todos os espaços são suas emanações. Eles sabiam que se originam dele como filhos de um homem perfeito. Eles sabiam que ainda não haviam recebido a fora nem um nome, cada um destes gerados pelo Pai. Se eles, nesta ocasião, recebem forma através de seu conhecimento, embora estejam realmente nele, não o conhecem. Mas o Pai é perfeito. Ele conhece cada espaço que há nele. Se for de seu agrado, Ele revela quem Ele quiser, dando-lhe uma forma e um nome; e Ele lhe dá um nome e o traz para a existência. Aqueles que ainda não existem ignoram aquele que os criou. Eu não digo, portanto, que aqueles que ainda não existem são nada. Mas estão nele que irá querer que existam quando for de seu agrado, como o acontecimento que ainda está por vir. Por um lado, Ele sabe, antes que qualquer coisa seja revelada, o que Ele produzirá. Por outro lado, o fruto que ainda não foi revelado não sabe de nada e é nada. Assim, cada espaço que, por sua parte, está no Pai provém do existente, que, por sua parte, o estabeleceu do não-existente... aquele que não existe, jamais existirá.
O que é, então, que Ele quer que ele pense? "Eu sou como as sombras e os fantasmas da noite". Quando chega a manhã, este sabe que o medo que ele sentiu era nada. Assim eles eram ignorantes a respeito do Pai; Ele é aquele que eles não viam. Como houve medo e confusão e falta de confiança e duplicidade de pensamento e divisão, havia muitas ilusões concebidas por Ele, o primeiro, bem como ignorância vazia — como se eles estivessem profundamente adormecidos e se vissem vítimas de sonhos. Ou existe um lugar para onde eles fogem, ou lhes falta força quando vêm, tendo perseguido coisas não identificadas. Ou eles desferem golpes, ou eles mesmos recebem arranhões. Ou eles caem de lugares altos, ou saem voando pelo ar, embora não tenham asas, outras vezes, é como se determinadas pessoas estivessem tentando matá-los, mesmo que não haja ninguém os perseguindo; ou, eles mesmos matam aqueles que estão a seu lado, pois estão manchados com o sangue deles. Até o momento em que aqueles que estão passando por todas estas coisas - quero dizer aqueles que vivenciaram todas estas confusões — despertam, eles nada vêem porque os sonhos são nada. E assim que aqueles que se desfazem da ignorância como ovelhas, não consideram que seja alguma coisa, nem consideram suas propriedades serem algo real, mas renunciam a elas como um sonho noturno e consideram o conhecimento do Pai como a aurora. E assim que cada um tem agido, como se estivesse adormecido, durante o tempo em que foi ignorante e então chega a entender, como se estivesse despertando. E bem-aventurado é o homem que recupera seus sentidos e desperta. Em verdade,
abençoado é aquele que abriu os olhos dos cegos.
E o Espírito se apressou até ele e o despertou. Deu a mão àquele que estava deitado inerte no solo, colocou-o firme nos seus pés, pois ele ainda não havia se erguido. Ele lhes deu meios de ter o conhecimento do Pai e a revelação de seu Filho. Pois quando eles O viram e ouviram, Ele lhes permitiu provar e cheirar e tocar o Filho amado.
Ele apareceu, informando-os sobre o Pai, o uno ilimitável. Ele inspirou-os com aquilo que está na mente, enquanto fazia sua vontade. Muitos receberam a luz e se voltaram para Ele. Mas os homens materiais são estranhos a Ele e não discerniram sua imagem nem O reconheceram. Pois Ele veio na aparência da carne e nada impediu seu caminho porque era incorruptível e incoercível. Além do mais, enquanto anunciava coisas novas, falando sobre aquilo que está no coração do Pai, Ele proclamou a palavra infalível. A luz falou através de sua boca, e sua voz emitia luz. Ele lhes deu pensamento e entendimento e misericórdia e salvação e o Espírito da força, derivado da infinitude do Pai, e doçura. Ele fez cessar os castigos e os suplícios, pois eram estes que faziam com que muitos necessitados de misericórdia se desgarrassem dele no erro e em correntes — e Ele os destruiu poderosamente e zombou deles com o conhecimento. Ele se tornou o caminho para aqueles que se desgarraram e conhecimento para aqueles que eram ignorantes, descoberta para aqueles que buscavam, e apoio para aqueles que vacilavam, pureza para aqueles que foram maculados.
Ele é o pastor que deixou as noventa e nove ovelhas que não se haviam desgarrado e foi em busca daquela que estava perdida. Ele se alegrou quando a encontrou. Pois noventa e nove é um número contido na mão esquerda. O momento em que encontra aquela perdida, porém, o número inteiro é transferido para a mão direita. Assim é aquele a quem falta o um, isto é, a mão direita toda atrai aquilo que lhe falta, pega-o do lado esquerdo e o transfere para o direito. Desta maneira, portanto, o número se torna cem. Este número significa o Pai.
Ele trabalhou até no Sabbath por causa da ovelha que encontrou caída no abismo. Ele salvou a vida desta ovelha, tirando-a do abismo para que vós possais entender totalmente o que é esse Sabbath, vós que possuís total entendimento. E o dia no qual não é apropriado que se deixe de lado a salvação, para que vós possais falar desse dia celeste que não tem noite e do sol que não se põe porque é perfeito. Dizei então em vosso coração que sois este dia perfeito e que em vós mora a luz que não falha.
Falai a respeito da verdade àqueles que a buscam e do conhecimento àqueles que, no seu erro, cometeram pecados. Firmai o passo daqueles que tropeçam e estendei vossas mãos para os enfermos. Alimentai os famintos e aquietai aqueles que estão perturbados. Cuidai dos homens que amais. Erguei e despertai aqueles que dormem. Pois vós sois o entendimento que encoraja. Quando os fortes seguem este caminho, eles se tornam mais fortes ainda. Voltai vossa atenção para vós mesmos. Não vos preocupeis com outras coisas, ou seja, com aquilo que lançastes fora de vós mesmos, aquilo que dispensastes. Não Volteis a comer destas coisas. Não sejais comidos por traças. Não sejais comidos por vermes, pois vós já vos livrastes deles. Não sejais local para o demônio, pois já o destruístes. Não fortaleceis vossos últimos obstáculos, porque isso é repreensível. Pois o homem sem lei é nada. Ele se prejudica mais do que a lei. Pois realiza suas obras porque é uma pessoa sem lei. Mas este, porque é uma pessoa justa, realiza suas obras entre os outros. Portanto, fazei a vontade do Pai, porque procedeis dele.
Pois o Pai é doce e sua vontade é boa. Ele conhece as coisas que são vossas, portanto, podeis descansar nelas. Pois é pelos frutos que são conhecidas as coisas que são vossas, que são os filhos do Pai, e se conhece seu aroma, que vós vos originais da graça de seu semblante. Por esta razão, o Pai amou seu aroma; e este se manifesta em todos os lugares; e quando se mistura com a matéria, Ele dá seu aroma para a luz; e em seu repouso Ele faz com que este se eleve em cada forma e em cada som. Pois não há narinas que cheirem o aroma, mas é o Espírito que possui o sentido de olfato e este o atrai para si por si mesmo e mergulha no aroma do Pai. Ele é, realmente, o lugar próprio para o aroma, e leva-o para o lugar de onde veio, no primeiro aroma que é frio. E algo em forma psíquica, semelhante à água fria que é... pois está no solo que não é duro, sobre o qual aqueles que o vêem pensam "E terra". Depois, se torna mole novamente. Quando se faz uma inspiração, normalmente esta é quente. os aro-mas frios, portanto, provêm da divisão. Por esta razão, Deus veio e destruiu a divisão e trouxe o Pleroma quente do amor, para que o frio não volte, mas prevaleça a unidade do pensa-mento perfeito.
Esta é a palavra do Evangelho acerca do encontro do Pleroma para aqueles que esperam pela salvação que vêm do alto. Quando a esperança deles, pela qual aguardam, está acesa — aqueles cuja imagem é a luz na qual não há sombra — então o Pleroma está prestes a vir. A deficiência da matéria, porém, não é por causa da ilimitação do Pai. E no entanto ninguém é capaz de dizer que o Uno incorruptível virá desta maneira. Mas a profundeza do Pai está aumentando, e o pensamento do erro não está com Ele. E uma questão de cair e uma questão de ser prontamente erguido ao encontrar aquele que veio e aquele que quer voltar.
Pois esta volta é chamada "arrependimento". Por esta razão, respirou a incorrupção. Ela seguiu aquele que pecou, para que ele encontre a paz. Pois o perdão é aquilo que permanece para a luz na deficiência, a palavra do pleroma. Pois o médico se apressa para o lugar no qual existe a doença, porque este é o seu desejo. O doente está numa condição deficiente, mas ele não se esconde porque o médico possui aquilo que lhe falta. Desta maneira, a deficiência é preenchida pelo Pleroma, que não possui deficiência, que se deu a si mesmo para preencher aquele que é deficiente, para que a graça possa levá-lo, então, da região que é deficiente e nau possui graça. Por causa disto uma diminuição ocorreu no lugar em que não há graça, a região onde aquele que é pequeno, que é deficiente, fica preso.
Ele se revelou como um Pleroma, isto é, a descoberta da luz da verdade que luziu para Ele, porque Ele é imutável. Por esta razão, aqueles que foram perturbados falaram sobre Cristo no seu meio para que pudessem receber uma resposta e para que Ele pudesse ungi-los com ungüento. O ungüento é a piedade do Pai, que terá misericórdia deles. Mas aqueles que Ele ungiu são os perfeitos. Pois os frascos cheios são aqueles que costumam ser usados para ungir. Mas quando se conclui uma unção, normalmente o frasco fica vazio, e a causa de sua deficiência é o consumo do ungüento. Pois então uma inspiração se produz apenas por meio da força que se tem. Mas aquele que não tem deficiência — não confia em ninguém além dele nem despeja nada. Aquele que é deficiente volta a ser preenchido pelo Pai perfeito. Ele é bom. Ele conhece suas plantações porque foi Ele quem as plantou em seu Paraíso. E seu Paraíso é seu lugar de repouso.
Esta é a perfeição no pensamento do Pai e estas são as palavras de sua reflexão. Cada uma de suas palavras é obra de sua única vontade para revelação de seu Logos. Como estavam na profundeza de sua mente, o Logos, que foi o primeiro a surgir, fez com que elas aparecessem, junto com um intelecto que fala a palavra única por meio de uma grande graça. Foi chamado "Pensamento", pois as palavras estavam nele antes de se manifestarem. Aconteceu, então, que o pensamento foi o primeiro à surgir
— no momento agradável à vontade daquele que o desejou; e está na vontade o repouso do Pai, com o que se compraz. Nada acontece sem o Pai, nem ocorre algo sem a vontade do Pai. Mas Sua vontade é incompreensível. Sua vontade é seu sinal, mas ninguém pode conhecê-la, nem é possível que alguém se concentre nela para possuí-la. Mas o que Ele quer acontece no momento que Ele o quer — mesmo quando o espetáculo não agrada a ninguém: é a vontade de Deus. Pois o Pai conhece a origem de todos eles, bem como seu fim. Pois quando o fim deles Chega, Ele os questionará diretamente. O fim, ora, é o reconhecimento daquele que está oculto, isto é, o Pai, de quem surgiu o início e para quem retornam todos os que vieram dele. Pois eles foram manifestados para a glória e a alegria de seu nome.
E o nome do Pai é o filho. Foi Ele quem, no início, deu um nome para aquele que emanou dele — Ele próprio — e o gerou como filho. Ele lhe deu o nome que lhe pertencia — Ele, o Pai que possui tudo que existe ao seu redor. Dele é o nome; dele é o filho. Eles podem vê-1o. O nome, porém, é invisível, pois Ele sozinho é o mistério do invisível, destinado a penetrar nos ouvidos que são completamente preenchidos por Ele, por meio da ação do Pai. Além do mais, quanto ao Pai, seu nome não é pronunciado, mas é revelado através do filho. Portanto, seu nome é grande.
Quem, então, seria capaz de pronunciar um nome para Ele, seu grande nome, a não ser aquele a quem o nome pertence e os filhos em quem o nome do Pai repousa, e que, por sua vez repousam em seu nome, já que o Pai não tem início? Ele sozinho gerou um nome para si no início, antes de ter criado os éons, para que o nome do Pai pairasse acima de suas cabeças como um senhor — isto é, o nome verdadeiro, firme em sua autoridade e no seu poder perfeito. Pois o nome não é tirado de categorias de palavras nem é derivado do modo comum de nomear, porque é invisível. Ele deu um nome para si mesmo, porque somente Ele o viu e porque somente Ele era capaz de dar-se um nome. Pois àquele que não existe não tem nome. Que nome lhe daria alguém que não existe? No entanto, aquele que existe, existe também com seu nome e somente Ele o conhece, e somente para ele o Pai deu um nome. O filho é seu nome. Ele, portanto, não o guardou escondi do secretamente, mas mostrou o no filho. Ele mesmo lhe deu um nome. O nome, portanto, é o do Pai, assim como o nome do Pai é o filho. Pois de outra maneira, onde a compaixão encontraria um nome — fora do Pai? Mas alguém provavelmente dirá a seu companheiro: "Quem daria um nome a alguém que existiu antes dele, como se, em verdade, os filhos não recebessem seu nome daqueles que os fizeram nascer?"
Acima de tudo, então, cabe a nós repensar este ponto: o que é o nome? E o nome verdadeiro. E, na realidade, o nome que veio do Pai, pois é Ele quem possui o nome. Ele não tomou o nome emprestado, como no caso de outros, de acordo com a maneira particular como cada um é gerado. Este, então, é o nome de autoridade. Não há ninguém mais a quem Ele o tenha dado. Mas permaneceu não nomeado, não pronunciado, até o momento em que Ele, que é perfeito, o pronunciou; e somente Ele teve o poder de pronunciar seu nome e vê-lo. Quando lhe agradou, então, que seu filho fosse seu nome pronunciado e quando Ele deu-lhe este nome, aquele que veio da profundeza falou de seus segredos, porque sabia que o Pai era a bondade absoluta. Por esta razão, de fato, Ele o enviou para que ele pudesse falar a respeito do lugar de repouso do qual Ele havia surgido, e que pudesse glorificar o Pleroma, a grandeza de seu nome e a doçura do Pai.
Cada um falará a respeito do lugar do qual surgiu, e se apressará a voltar uma vez mais à região da qual recebeu seu ser essencial. E saiu daquele lugar — o lugar onde estava - porque provou daquele lugar, enquanto era alimentado e crescia. E seu próprio lugar de repouso é seu Pleroma. Todas as emanações do Pai, portanto, são Pleromas, e todas as suas emanações têm suas raízes naquele que fez com que todas elas crescessem dele. Ele determinou um limite. Elas, então, se manifestaram individualmente para que pudessem ser em seu próprio pensamento, pois aquele lugar para o qual elas estendem seu pensamento é sua raiz, que as eleva por todas as alturas até junto ao Pai. Elas alcançam sua cabeça, que é repouso para elas, e permanecem ali perto, dizendo assim que compartilharam de sua face por meio de abraços. Mas as desse tipo não foram manifestadas, porque não se superaram. Nem foram privadas da glória do Pai nem o consideravam pequeno, nem amargo, nem irado, mas absolutamente bom, imperturbável, doce, conhecedor de todos os espaços antes de eles terem existido e sem necessidade de ser esclarecido. Assim são aqueles que possuem do alto alguma coisa desta grandiosidade imensurável, enquanto se esforçam em direção desse uno único e perfeito que lá está para eles. E eles não descem ao Hades. Eles não têm dentro deles nem inveja nem lamentação, nem a morte. Mas repousam naquele que repousa, sem se esgotar nem se enredar na busca da verdade. Mas eles, de fato, são a verdade, e o Pai está neles, e eles estão no Pai, pois são perfeitos, inseparáveis dele que é verdadeiramente bom. Não lhes falta nada, mas repousam e são revigorados pelo Espírito. E ouvem sua raiz; e se comprazem em si mesmos, aqueles em quem Ele encontrará sua raiz, e não sofrerá dano para sua alma.
Assim é o lugar dos abençoados; este é o lugar deles. Quanto ao resto, então, que saibam, cada um no seu lugar, que não me convém, depois de ter estado no lugar de repouso, dizer nada mais. Mas eu estarei nele para me dedicar, por todos os tempos, ao trai do Todo e aos verdadeiros irmãos, sobre quem o amor do Pai jorra, e onde nada falia. São eles que se manifestam verdadeiramente, pois estão nessa vida verdadeira e eterna e falam da luz perfeita preenchida da semente do Pai, e que está em seu coração e no Pleroma, enquanto seu Espírito se rejubila nela e glorifica aquele em quem existe, porque o Pai é bom. E seus filhos são perfeitos e dignos de seu nome, porque ele é o Pai. Estes são os filhos que ele ama.

Evangelho Segundo Felipe


UM HEBREU faz um hebreu e [o] chama desta maneira: "prosélito". Mas um prosélito não faz outro prosélito: [alguns] são como [...] e criam outros: [outros, todavia] se satisfazem com o fato de chegar a existir.
2    O [escravo] apenas aspira a ser livre e não ambiciona os bens do seu senhor; mas o filho não é só filho: reclama para si a herança do pai.
3    Os que herdam dos mortos estão eles mesmos mortos e são herdeiros de mortos. Os que herdam dos vivos vivem eles próprios e são herdeiros de quem está vivo e de quem está morto. Os mortos não herdam de ninguém, pois como pode herdar quem está morto? Se o morto herda de quem está vivo, não morrerá. Antes, viverá com maior razão.
4    Um homem pagão não morre, pois em verdade não viveu nunca, para que logo [possa] morrer. Aquele que chegou a ter fé na verdade, esse encontrou a vida e corre perigo de morrer, pois mantém-se vivo.
5    A partir da vinda de Cristo, o mundo é criado, as cidades tomam-se belas e desaparece tudo que havia fenecido.
6    Enquanto éramos hebreus, estávamos órfãos; apenas possuíamos nossa
mãe. Mas ao fazer-nos cristãos, surgiram para nós um pai e uma mãe.
7    Os que semeiam no inverno colhem no verão. O inverno é o mundo; o verão é o outro éon. Semeemos o mundo para que possamos colher no verão! Ao inverno sucede o verão; mas quem se empenha em colher no inverno, não terá colheita, terá de arrancar.
8    Da mesma maneira que alguém como esse, ele [não] produzirá fruto; e não só isso [...]: também no outro Sábado permanece [...] estéril.
9    Cristo veio para resgatar alguns, para salvar outros e redimir outros. Ele resgatou os forasteiros e os fez seus. Ele segregou os seus, penhorando-os segundo sua vontade. Ao manifestar-se, não só se desprendeu da lama quando lhe aprouve, como também, desde o dia em que o mundo teve sua origem, a manteve deposta. Quando quis veio recuperá-la, já que ela havia sido penhorada; havia caído em mãos de ladrões e feita prisioneira. Mas Ele a libertou, resgatando os bons que havia no mundo e os maus.
10    A luz e as trevas, a vida e a morte, os da direita e os da esquerda são irmãos entre si, sendo impossível separar uns dos outros. Por isso nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Assim é que cada um virá a dissolver-se em sua própria origem desde o princípio; mas os que estão além do mundo são indissolúveis e eternos.
11    Os nomes que se dão às vibrações do mundo são susceptíveis de um grande equívoco, pois distraem a atenção do estável para o instável. E, assim, quem ouve (a palavra) "Deus" entende não o estável, mas o instável. O mesmo ocorre com o "Pai", o "Filho", o "Espírito Santo", a "Vida", e "Luz", a "Ressurreição", a "Igreja" e tantos outros; não se entendem os conceitos estáveis, mas sim os instáveis, a não ser que se conheçam de antemão os primeiros. Estes estão no mundo [...]; se estivessem no éon nunca seriam citados no mundo nem estariam entre as coisas ter-renas; eles têm seu fim no éon.
12    Só há um nome que não se pronuncia no mundo: o nome que o Pai deu ao Filho. E superior a tudo. Trata-se do nome do Pai, pois o Filho não chegaria a ser Pai se não se houvesse apropriado do nome do Pai. Quem está de posse desse nome o entende, mas não fala dele; mas os que não estão de posse dele não o entendem. A verdade criou diferentes nomes neste mundo, porque sem eles é de todo impossível apreendê-la. A verdade é única e múltipla por nossa causa, para ensinar-nos, através de muitos este único nome por amor.
13    Os Archontes quiseram enganar o homem, vendo que ele tinha parentesco com os verdadeiramente bons: tiraram o nome dos que são bons e o deram aos que não são bons, com o fito de enganar por meio dos nomes e vinculá-lo aos que não são bons. Logo — no caso de que queiram prestar-lhes um favor — farão que se separem dos que não são bons e os integrarão entre os que são bons, que eles conheciam de antes. Pois eles pretendiam raptar o que é livre e fazê-lo seu escravo para sempre.
14    Há Potências que [são] outorgadas ao homem [...], pois não quer que este [chegue a salvar-se] para que elas consigam ser [...]; pois se o homem [se salva], fazem-se sacrifícios [...] e se oferecem animais às Potências. [E a estas] que se fazem tais oferendas, (que) no momento de ser ofertadas estavam vivas, mas ao ser sacrifica das morreram. O homem, de sua parte, foi oferecido a Deus em estado de morte e viveu.
15    Antes da vinda de Cristo não havia pão no mundo. O mesmo sucedia no paraíso — lugar em que morava Adão — havia aí muitas árvores para alimento dos animais, mas não havia trigo para alimentar o homem. &te nutria-se como os animais. Mas Cristo — o perfeito — ao vir, trouxe pão do céu para que o homem se alimentasse com alimento de homem.
16    Os Archontes acreditavam que por sua força e por sua vontade faziam o que faziam; mas era o Espírito Santo que operava ocultamente em tudo, através deles, segundo sua vontade. Eles semeiam por toda parte a verdade, que existe desde o princípio, e muitos a contemplam ao ser semeada; mas poucos dos que a contemplam a colhem.
17    Alguns dizem que Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Fases se equivocam, não sabem o que dizem. Quando alguma vez uma mulher foi concebida de uma mulher? Maria é a virgem a quem Potência alguma jamais manchou. Ela é um grande anátema para os judeus que são os apóstolos e os apostólicos. &ta Virgem que nenhuma Potência violou, [... enquanto que] as Potências se contaminaram. O Senhor não [teria] dito: "Pai meu que estás nos céus", se não tivesse outro pai; do contrário haveria dito simplesmente: "[Pai meu]".
18    O Senhor disse a seus discípulos: [...] "Entrai na casa do Pai, mas não tomeis nem leveis nada da casa do Pai".
19    "Jesus" é um nome secreto, "Cristo" é um nome público. Por isso "Jesus" não existe em língua alguma, apenas seu nome é "Jesus", como geral-mente é chamado. "Cristo", todavia — pelo que diz respeito ao seu nome em siríaco —, é Messias, do mesmo modo que em grego e em outras línguas, com as necessárias adequações. "O Nazareno" é [o nome] que está manifestado no oculto.
20    Cristo encerra tudo em si mesmo — seja "homem", seja "anjo", seja "mistério" —, incluindo o Pai.
Os que dizem que o Senhor primeiro morreu e depois ressuscitou, enganam-se, pois primeiro ressuscitou e depois morreu. Se alguém não consegue primeiro a ressurreição não morrerá; tão verdade quanto Deus vive, este [morrerá].
22    Ninguém esconde um objeto grande e precioso em um recipiente grande, mas muitas vezes se guardam tesouros sem conta em um cofre que não vale mais do que um maravedi. Isso ocorre com a alma: é um objeto precioso que veio cair em um corpo desprezível.
23    Há os que têm medo de ressuscitar nus e por isso querem ressuscitar em carne. Estes não sabem que os que estão revestidos de carne são os nus. Aqueles que [ousam] desnudar-se são precisamente [os que] não estão nus. "Nem a carne [nem o sangue] herdarão o reino [de Deus]". Qual é a [carne] que não vai herdar? A que usamos por cima de nós. E qual, ao contrário, é a carne que herdará? A [carne] de Jesus e seu sangue. Por isso disse Ele: "Aquele que não come minha carne e não bebe meu sangue não tem vida em si." E que é isso? Sua carne é o Logos [verbo] e seu sangue é o Espírito Santo. Quem recebeu tais coisas possui alimento, bebida e roupa. Eu recrimino os outros que afirmam que [a carne] não vai ressuscitar, pois uns e outros estão errados. Tu dizes que a carne não ressuscitará. Diz-me então o que é que vai ressuscitar, para que possamos aplaudir-te. Tu dizes que o Espírito [está] dentro da carne e que também esta luz está dentro da carne. Mas o Logos é esse outro que também está dentro da carne, pois — qualquer das coisas a que te refiras — nada poderás aduzir que se encontre fora do interior da carne. E, pois, necessário ressuscitar nesta a carne, já que nela tudo está contido.
24    Neste mundo, aqueles que vestem uma roupa valem mais do que a própria roupa. No reino dos céus, [todavia,] valem mais as roupas que
aqueles que as vestem, pois são de água e fogo, que a tudo purificam.
25    Os que estão manifestados [o estão] graças aos que estão manifestados e os que estão ocultos o estão graças aos que estão ocultos. Há quem [se mantém] oculto graças aos que estão manifestados. Há água na água e fogo na unção.
26    Jesus ocultou-se de todos, pois não se manifestou como era integralmente, e sim dentro das possibilidades de cada um. Assim é que apareceu [o..] grande aos grandes, pequeno aos pequenos, como anjo aos anjos e como homem aos homens. Por isso seu Logos se manteve oculto a todos. Alguns o viram e acreditavam que se viam a si mesmos; mas quando se manifestou gloriosa-mente aos seus discípulos sobre a montanha, não era peque-no: se havia feito grande e fez grandes seus discípulos para que estivessem em condições de vê-lo grande [a Ele mesmo]. E disse naquele dia na ação de graças: "Tu que uniste o perfeito e a luz com o Espírito Santo, une também os anjos conosco, com as imagens".
27    Não desprezeis o Cordeiro, pois sem ele não é possível ver o rei. Ninguém poderá pôr-se a caminho para o rei estando nu.
28    Mais numerosos são os filhos do homem celestial que os do homem terreno. Se são numerosos os filhos de Adão — apesar de mortais — quanto mais os filhos do homem perfeito, que não só não morrem como são engendrados ininterruptamente.
29    O pai faz um filho e o filho não tem possibilidade de fazer por sua ver um filho: pois quem foi engendrado não pode engendrar, e o filho procura ir-mãos, não filhos.
30    Todos os que são engendrados no mundo são engendrados pela natureza, o resto pelo [espírito]. Os que são engendrados por este [dão gritos] ao homem daqui de baixo [para...] da promessa [...] de cima.
31    [Aquele que...] pela boca; [se] o Logos tivesse saído dali se alimentaria pela boca e seria perfeito. Os perfeitos são fecundados por um beijo e engendram. Por isso nós nos beijamos uns aos outros [e] recebemos fecundação pela graça que nos é comum.
32    Três [eram as que] caminhavam continuamente com o Senhor: sua mãe Maria, a irmã desta e Madalena, a quem se designa como sua companheira. Maria é, de fato, sua irmã, sua mãe e companheira.
33    "Pai" e "Filho" são nomes simples; "Espírito Santo" é um nome composto. Aqueles se encontram em toda parte: acima, abaixo, no oculto e no manifestado. O Espírito Santo está no revelado, abaixo, acima, oculto.
34    As Potências malignas estão ao serviço dos santos, depois de haverem sido reduzidas à cegueira pelo Espírito Santo, para que cressem que serviam a um homem e que assim estariam atuando em favor dos santos. Por isso [quando] um dia um discípulo pediu ao Senhor uma coisa do mundo — Ele lhe disse: "Pede a tua mãe e ela te fará partícipe das coisas alheias".
35    Os apóstolos disseram a seus discípulos: "Que toda nossa oferenda procure sal ela própria." Eles designavam por "sal" a [a Sofia], pois sem ela nenhuma oferenda é aceitável.
36    A Sofia é estéril, [sem] filhos, por isso [também] é chamada de "sal". No lugar em que aqueles [...] à sua maneira [é] o Espírito Santo; [por isso] são numerosos seus filhos.
37    O que o Pai possui pertence ao filho, mas enquanto este é pequeno não se lhe confia o que é seu. Quando se faz homem, então dá-lhe o pai tudo quanto possui.
38    Quando os engendrados pelo espírito erram, erram também por ele. Pela mesma razão um mesmo sopro atiça o fogo e o apaga.
39    Uma coisa é "Echamoth", outra é "Echmoth". Echamoth é a Sofia por antomásia, enquanto que Echmoth é a Sofia da morte, aquela que conhece a morte, a quem chamam "Sofia a pequena".
40    Há animais que vivem submetidos ao homem, tais como as vacas, o burro e outros semelhantes. Há outros, todavia, que não se submetem e vivem sozinhos, em paragens desertas. O homem ara o campo com animais domésticos e assim se alimenta a si mesmo e aos animais, tanto aos que se submetem como aos que não se submetem. O mesmo se passa com o homem perfeito: com [a ajuda das] Potências que lhe são dóceis, ara [e] cuida para que todos subsistam. Por isso mantém o equilíbrio, quer se trate dos bons, quer dos maus, dos que estão à direita e dos que estão à esquerda. O Espírito Santo apascenta a todos e exerce seu domínio sobre [todas] as Potências, tanto sobre as dóceis quanto sobre as [indóceis] e solitárias, pois ele [...] as prende para que [...] quando queiram.
41    [Se Adão] foi criado [...], estarás de acordo em que seus filhos são obras nobres. Se ele não houvesse sido criado, mas sim engendrado, estarias também de acordo em que sua posteridade é nobre. Pois bem, ele foi criado e [por sua vez] engendrou. Que nobreza isto pressupõe!
42    Primeiro houve adultério e depois [veio] o assassino engendrado no adultério, pois era o filho da serpente. Por isso se tomou homicida como seu pai e matou seu irmão. Pois bem, toda relação sexual entre seres não semelhantes entre si é adultério.
43    Deus é tintureiro. Assim como a boa tinta — chamada de "autêntica"
— só desaparece quando as coisas que com ela são tingidas se corrompem, o mesmo ocorre com aqueles a quem Deus tingiu: posto que sua tinta é imperecível, graças a ela eles mesmos se tomam imortais. Pois bem, Deus batiza os que batiza com água.
44    Ninguém pode ver quem quer que seja estável a não ser que ele mesmo se assemelhe ao estável. Com a verdade não ocorre o mesmo que com o homem enquanto se encontra neste mundo, pois ele vê o sol sem ser o sol e contempla o céu e a terra e todas as outras coisas sem serem elas mesmas. Tu, ao contrário, viste algo daquele lugar e te converteste naquelas coisas que havias visto: viste o espírito e te fizeste espírito; viste Cristo e te fizeste Cristo; viste [o Pai] e te fizeste pai. Por isso,tu [aqui] vês todas as coisas e não [te vês] a ti próprio; mas [ali], sim, te verás, pois [chegarás a ser] o que estás vendo.
45    A fé recebe, o amor dá. [Ninguém pode receber] sem a fé; ninguém pode dar sem amor. Por isso creiamos, para poder receber; mas, para poder dar de verdade [temos de amar também]; pois se alguém dá, mas não por amor, não tira utilidade alguma do que deu.
46 Os apóstolos, antes de nós, o chamaram assim: "Jesus o Nazareno, Messias" — que quer dizer "Jesus o Nazareno, o Cristo". O último nome é "O Cristo"; o primeiro, "Jesus"; o do meio é o "o Nazareno". "Messias" tem um duplo significado: "o Cristo" e "o Medido". "Jesus", em hebraico, é "a Redenção. O Cristo foi medido: o Nazareno e o Jesus são os que foram medidos.
48 Se se atira a pérola ao monturo, nem por isso ela perde seu valor. Tampouco se faz mais preciosa ao ser tratada com ungüento de bálsamo, mas aos olhos do proprietário conserva sempre o seu valor. O mesmo ocorre com os filhos de Deus onde quer que estejam, pois conservam sempre seu valor aos olhos do Pai.
49    Se dizes "sou judeu", ninguém se inquietará; se dizes "sou grego", bárbaro, escravo ou livre, ninguém se perturbará. [Mas se dizes] "sou cristão", [todo mundo] começará a tremer. Oxalá possa eu [...] este signo que E...1 não são capazes de suportar [...] esta denominação!
50    Deus é antropófago, por isso se lhe [oferece] o homem [em sacrifício]. Antes que o homem fosse imolado se imolavam animais, pois não eram deuses aqueles a quem se faziam sacrifícios.
51    Tanto as vasilhas de vidro como as de argila se fazem à base de fogo. As de vidro podem ser remodeladas se se rompem, pois foram fabricadas por um sopro. As de argila, ao contrário, se se rompem ficam destruídas definitivamente, pois nenhum sopro interveio em sua fabricação.
52    Um asno, dando voltas em tomo de uma roda de moinho, caminhou cem milhas, e quando o desjungiram ainda se encontrava no mesmo lugar. Existem homens que fazem muito caminho sem se mover um passo em direção alguma. Ao se verem surpreendidos pelo crepúsculo não chegaram a divisar cidades, nem aldeias, nem criaturas, nem natureza, nem potência ou anjo. Em vão se esforçaram, os pobres!
53    A Eucaristia é Jesus, pois a este se chama em siríaco "Pharisata", que quer dizer "aquele que está estendido" o Jesus veio, realmente, a crucificar o mundo.
54    O Senhor foi à tinturaria de Levi, tomou setenta e duas cores e atirou-as na tina. Depois tirou-as todas tingidas de branco e disse: "Assim foi que as tomou o filho do filho do homem [...].
55    A Sofia — a quem chamam "a estéril" — é a mãe dos anjos: a companheira [de Cristo é Maria] Madalena. [O Senhor amava Maria] mais do que a todos os discípulos [e] a beijou na [boca repetidas] vezes. O~ demais [...] lhe disseram: Par que a queres mais que a todos nós"? O Salvador respondeu c lhes disse: "A que se deve isso que não vos quero tanto quanto a ela"?
56    Um cego e um que vê-se se encontrarem ambos às escuras — não se distinguem um do outro; mas quando chegarem à luz o que vê será a luz enquanto que o cego permanecerá na obscuridade.
57    Disse o Senhor: "Bem-aventurado é aquele que é antes de chegar a existir, pois c que é, era e será".
58    A superioridade do homem não é patente e sim oculta. Por isso domina as besta que são mais fortes do que ele e de grande tamanho — tanto na aparência quanto na realidade — e proporciona-lhes subsistência. Mas quando w deixa, elas se matam umas às outras e se mordem até devorar-se mutuamente por não achar o que comer. Mas agora — uma vez que o homem trabalhou a terra — encontraram seu sustento.
59    Se alguém - depois de baixadas as águas — sai dela; sem nada haver recebido e diz "sou cristão", [somente] ter recebido este nome de empréstimo. Mas, se recebe o Espírito Santo, fica de posse do (citado) nome a título de doação. Nada se tira de quem recebeu um presente, mas reclama-se a devolução do empréstimo a quem o recebeu.
60    O mesmo ocorre quando alguém foi [...] em um mistério. O mistério do matrimônio [é] grande, pois [sem ele] o mundo não existiria. A consistência [do mundo depende do homem], a consistência [do homem depende do] matrimônio. Reparai na união [sem mancha]. pois tem [um grande] poder. Sua imagem está vinculada à poluição [corporal].
61    Entre os espíritos impuros existem machos e fêmeas. Os machos são aqueles que copulam com as almas que estão alojadas em uma figura feminina. As fêmeas, ao contrário, são aquelas que estão unidas com os que se abrigam em um figura masculina por culpa de uma desobediente. E ninguém poderá fugir desses espíritos se cair em poder deles, a não ser que seja dotado simultaneamente de uma força masculina e outra feminina — isto é, esposo e esposa — provenientes da câmara nupcial em imagem. Quando as mulheres néscias descobrem um homem solitário lançam-se sobre ele, gracejam com ele e o mancham. O mesmo ocorre com os homens néscios: se descobrem um mulher formosa que vive só procuram insinuar-se e até forçá-la, com o fito de violá-la. Mas se vêem que homem e mulher vivem juntos, nem as fêmeas podem aproximar-se do macho nem os machos das fêmeas. O mesmo acontece se a imagem e o anjo estão unidos entre si: ninguém se atreverá tampouco a se acercar do homem ou da mulher. Aquele que sai do mundo não pode cair preso pela simples razão de que [já] esteve no mundo. Está claro que este é superior à concupiscência [...e ao] medo; é senhor de seus [...] e mais freqüente que os ciúmes. Mas se [se trata de...], prendem-no e o sufocam, e como poderá [este] fugir de [...] e pôr-se em condições de [...]? [Com freqüência vêm] alguns [e dizem] "nós somos crentes", [a fim de escapar de...e] demônios.
Se estes tivessem estado de posse do Espírito Santo, nenhum espírito imundo teria aderido a eles.
62    Não tenhas medo da carne nem a ames: se a temeres, assenhorear-se-á de ti; se a amares, te devorará e entorpecerá.
63    Ou se está neste mundo, ou na ressurreição, ou em locais intermediários. Queira Deus que a mim não me encontrem nestes! Neste mundo há coisas boas e coisas más. Mas há algo mau depois deste mundo que é na verdade pior e que chamam o "Intermédio", que dizer, a morte. Enquanto estivermos neste mundo é conveniente que nos esforcemos por conseguir a ressurreição, para que — uma vez que deponhamos a carne nos achemos no descanso e não tenhamos de ir errando no "Intermédio". Muitos, realmente, erram o caminho. E, pois, conveniente sair deste mundo antes que o homem haja pecado.
64    Alguns nem querem nem podem; outros, ainda que queiram, de nada lhes serve por não terem feito. De maneira que um [simples] "querer" os faz pecadores, do mesmo modo que um "não querer". A justiça se esconderá de ambos. O "querer" [é...], o "fazer", não.
65    Um discípulo dos apóstolos viu em uma visão algumas [pessoas] encerradas em uma casa em chamas, acorrentadas com grilhões de fogo e atiradas [em um mar] de fogo. [E diziam...] água sobre [...]. Mas estes replicavam que — muito contra sua vontade — [não] estavam em condições de [as] salvar. Eles receberam [a morte como] castigo, aquela que chamam de "treva [exterior]" por [ter sua origem] na água e no fogo.
66    A [alma] e o espírito chegaram à existência partindo de água, fogo e luz [por mediação] do filho da câmara nupcial. O fogo é a unção, a luz é o fogo; não estou falando desse fogo que não possui forma alguma, mas do outro cuja forma é branca, que é refulgente e belo e irradia [por sua vez] formosura.
67    A verdade não veio nua a este mundo, mas envolta em símbolos e imagens, já que de outra maneira não poderia ser recebida. Há uma regeneração e uma imagem de regeneração. E na verdade necessário que se renasça através da imagem. Que é a ressurreição? E preciso que a imagem ressuscite pela imagem; é preciso que a câmara nupcial e a imagem através da imagem entrem na verdade que é a restauração final. E conveniente [tudo isto] para aqueles que não apenas recebem, mas que fizeram seu por méritos próprios o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se uma pessoa não os obtém por si mesma, até o próprio nome lhe será arrebatado. Pois bem, esses nomes se conferem na unção com o bálsamo da força E...1 que os apóstolos chamavam "a direita" e "a esquerda". Pois alguém assim não é mais um [simples] cristão, mas um Cristo.
68    O Senhor [realizou] todo um mistério: um batismo, uma unção, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial.
69    [O Senhor] disse: "Vim fazer [as coisas inferiores] como as superiores [e as externas] como as [internas, para uni-las] todas no lugar". [Ele se manifestou aqui] através de símbolos [...]. Aqueles, pois, que dizem: "[...] há quem está em cima [...]", se enganam, [pois] o que se manifesta [...] é o que chamam o "de baixo" e o que possui o oculto está em cima dele. Com razão, pois se fala da "parte interior" e da "exterior" e "da que está fora da exterior". E assim o Senhor chamava a perdição de "treva exterior, fora da qual nada há". Ele disse: "Meu Pai que está escondido", e também: "Entra em tua habitação, fecha a porta e ora a teu Pai que está escondido", justo é, "o que está no interior de todos eles". Pois bem, o que está dentro deles é a Pleroma: mais interior do que ela não existe nada. Este é precisamente aquele de quem se diz: "Está por cima deles".
70    Antes de Cristo saíram alguns do lugar a que não haveriam de voltar a entrar e entraram no lugar de onde não haveriam de voltar a sair. Mas Cristo, com sua vinda, tirou para fora os que haviam entrado e pôs para dentro os que haviam saído.
71    Enquanto Eva estava [dentro de Adão; não existia a morte, mas quando se separou [dele] sobreveio a morte. Quando esta retomar e ele a aceitar, deixará de existir a morte.
72    "Deus meu! Deus meu! Por que Senhor, tanto me glorificas?" Isto disse Ele sobre a cruz depois de separar este Pai lugar [de tudo que] havia sido engendrado por [...] através de Deus. [O Senhor ressuscitou] de entre os mortos [...]. Mas seu corpo era perfeito: [tinha, sim,] uma carne, mas esta [era uma carne] de verdade. [Nossa carne, ao contrário], não é autêntica, [mas] uma imagem da verdadeira.
73    A câmara nupcial não é feita para as bestas nem para os escravos nem para as mulheres sem honra, e sim para os homens livres e para as virgens.
74    Em verdade, somos engendrados pelo Espírito Santo mas reengendrados por Cristo. Em ambos os [casos] somos também ungidos pelo espírito e — ao ser engendrados —, fomos unidos também.
75    Sem luz ninguém poderá contemplar-se a si mesmo, nem em uma superfície de água nem em um espelho; mas se não tens água ou espelho — ainda que tenhas luz —, tampouco poderás contemplar-te. Por isso é necessário batizar-se com duas coisas: com a luz e com a água. Pois bem, a luz é a unção.
76    Três eram os lugares em que se faziam oferendas em Jerusalém: um, que se abria para o Poente, chamado o "Santo"; outro, aberto para o Sul, chamado o "Santo do Santo", e o terceiro, aberto para o Oriente, chamado o "Santo dos Santos", por onde só podia entrar o Sumo Sacerdote. O batismo é o "Santo", [a redenção] é o "Santo do Santo", enquanto que a câmara nupcial é o "[Santo] dos Santos". [O batismo] traz consigo a ressurreição [e a] redenção, mas esta se realiza na câmara nupcial. Mas a câmara nupcial encontra-se na cúpula [de...]. Tu não serás capaz de encontrar [...] aqueles que fazem oração [...] Jerusalém [...] Jerusalém [...] Jerusalém [...] chamada
Santo dos Santos" [...] o véu [...] a câmara nupcial, mas sim a imagem [...]. Seu véu rasgou-se de alto a baixo, pois era preciso que alguns subissem de baixo para cima.
77    Aqueles que se vestiram da luz perfeita não podem ser vistos pelas Potências nem detidos por elas. Pois bem, podemos revestir-nos desta luz no sacramento, na união.
78    Se a mulher não se houvesse separado do homem,não teria morrido com ele. Sua separação tomou-se o começo da morte. Por isso veio Cristo, para anular a separação que existia desde o princípio, para unir a ambos e para dar a vida àqueles que haviam morrido na separação e uni-los de novo.
79    Pois bem, a mulher se une com o marido na câmara nupcial.
80    A alma de Adão chegou à existência por um sopro. Seu cônjuge é o [espírito; o espírito] que lhe foi dado é sua mãe [e com] a alma lhe foi outorgado [...] em seu lugar. Ao unir. se [pronunciou] algumas palavras que são superiores às Potências. Estas tiveram-lhe inveja [...] união espiritual [...].
81    Jesus manifestou [sua glória no] Jordão. A plenitude do reino dos céus, que [preexistia] ao Todo, nasceu ali de novo. O que antes [havia sido] ungido, foi ungido de novo. O que havia sido redimido, por sua vez
redimiu.
82    Digamos — se é permitido — um segredo: o Pai do Todo se uniu com a virgem que havia descido e um fogo o iluminou naquele dia. Ele deu a conhecer a grande câmara nupcial, e por isso seu corpo — que teve origem naquele dia — saiu da câmara nupcial como quem tivesse sido engendrado pelo esposo e a esposa. E também, graças a estes, encaminhou Jesus o Todo a ela, sendo preciso que todos e cada um dos seus discípulos entrem em seu lugar de repouso.
83    Adão deve sua origem a duas virgens, isto é, ao Espírito e à terra virgem. Por isso Cristo nasceu de uma Virgem, para reparar a queda que ocorreu no princípio.
84    Duas árvores há no [centro do] paraíso: uma produz [animais], outros homens. Adão [comeu] da árvore que produzia animais e se converteu ele próprio em animal e engendrou animais. Por isso os [filhos] de Adão adoram [os animais]. A árvore [cujo] fruto [Adão comeu] é [a árvore do conhecimento]. [Por] isso multiplicaram-se [os pecados]. [Se ele houvesse] comido [o fruto da outra árvore, quer dizer], o fruto da [árvore da vida, que] produz homens, [então os deuses adorariam] o homem. Deus fez [o homem] e o homem faria Deus.
85    O mesmo ocorre no mundo: os [homens] produzem deuses e adoram a obra de suas mãos. Seria conveniente que os deuses venerassem os homens, como corresponde à lógica.
86    As obras do homem provêm de sua potência: por isso são chamadas as "Potências". Obras suas são também seus filhos, procedentes de um repouso. Por isso sua potência se origina das suas obras, enquanto que o repouso se manifesta em seus filhos. E estarás de acordo em que isto diz respeito à [própria] imagem. Assim, pois, aquele é um homem modelo, que realiza sua obra por sua força mas engendra seus filhos no repouso.
87    Neste mundo os escravos servem aos livres; no reino dos céus, os livres servirão aos escravos, [e] os filhos da câmara nupcial aos filhos do matrimônio. Os filhos da câmara nupcial têm um nome [...]. O repouso [é comum] a ambos: não têm necessidade de [...].
88    A contemplação [...].
89    [... ] Cristo baixou à água [...] para redimi-la; [...] aqueles que Ele [... ] por seu nome. Pois Ele disse: "[E conveniente] que cumpramos tudo aquilo
que é justo".
90    Os que afirmam que primeiro é preciso morrer e depois ressuscitar se enganam. Se não se recebe primeiro a ressurreição em vida, nada se receberá ao morrer. Nestes termos se expressam também acerca do batismo, dizendo: "Grande coisa é o batismo, pois quem o recebe viverá".
91    O apóstolo Felipe disse: "José o carpinteiro plantou um viveiro porque necessitava de madeira para o seu oficio. Ele foi quem construiu a cruz com as árvores que havia plantado. Sua semente ficou aderida ao que ele havia plantado. Sua semente era Jesus, e a cruz, a árvore".
92    Mas a árvore da vida está no centro do paraíso, e também a oliveira, de que procede o óleo graças a qual [chegou-nos] a ressurreição.
93    Este mundo é necrófago: tudo que nele se come [se ama também]. A verdade, ao contrário, se nutre da vida, [por isso] nenhum dos que [dela] se alimentam morrerá. Jesus veio [do outro] lado e trouxe alimento [dali]. Aos que desejavam deu Ele [vida para que] não morressem.
94    [Deus plantou um] paraíso; o homem [viveu no] paraíso [o..]. Este paraíso [é o lugar onde me dirão: ["Homem, come] disto ou não comas [disto, conforme teu] desejo”. Esse é o lugar onde comerei de tudo, já que ali se encontra a árvore do conhecimento. Esta causou a morte de Adão e deu, ao invés, vida aos homens. A lei era a árvore: esta tem a propriedade de facilitar o conhecimento do bem e do mal, mas nem afastou [ao homem] do mal nem o confirmou no bem, senão que trouxe consigo a morte para todos aqueles que dela comeram. Pois ao dizer: "Comei isto, não comais isto", transformou-se em princípio da morte.
95    A unção é superior ao batismo, pois é por ela que recebemos o nome de cristãos, não pelo batismo. Também Cristo foi chamado assim pela unção, pois o Pai ungiu o Filho, o Filho aos apóstolos e estes nos ungiram a nós. Quem recebeu a unção está de posse do Todo: da ressurreição, da luz, da cruz e do Espírito Santo. O Pai outorgou-lhe tudo isso na câmara nupcial. O Pai [o] recebeu.
96    O Pai colocou sua morada no [Filho] e o Filho no Pai: isto é o reino dos céus.
97    Com razão disse o Senhor: "Alguns entraram sorrindo no reino dos céus e saíram [...]". Um cristão [...] e imediatamente [desceu] à água e subiu [sendo senhor do] Todo; [não] porque pensava que era uma zombaria, mas [porque] desprezava isto [como indigno do] reino [dos céus]. Se [o] despreza o toma como zombaria, [sairá dali] rindo.
98    O mesmo ocorre com o pão, o cálice e o óleo, se bem que haja outro [mistério] que é superior a este.
99    O mundo foi criado por culpa de uma transgressão, pois aquele que o criou queria fazê-lo imperecível e imortal mas caiu e não pôde realizar suas aspirações. De fato não havia incorruptibilidade nem para o mundo nem para quem o havia criado, já que incorruptíveis não são as coisas mas os filhos, e nenhuma coisa poderá ser perdurável a não ser que se faça filho, pois como poderá dar quem não está com disposição para receber?
100    O cálice da oração contém vinho e água, porque serve de símbolo do sangue, sobre o qual se faz a ação de graças. Está cheio do Espírito Santo e pertence ao homem inteiramente perfeito. Ao bebê-lo faremos nosso o homem perfeito.
101    A água é um corpo. É preciso que nos revistamos do homem vivente: por isso, quando nos dispomos a descer à água, temos de nos desnudar para podermos vestir-nos com ele.
102    Um cavalo engendra um cavalo, um homem engendra um homem e um deus engendra um deus. O mesmo ocorre com o esposo e [a esposa: seus filhos] tiveram sua origem na câmara nupcial. Não houve judeus [que descendessem] de gregos [enquanto] estava em vigor [a Lei. Nós, entretanto, descendemos de] judeus [apesar de] cristãos [...]. Estes foram chamados [...] "povo escolhido" de [...] e "homem verdadeiro" e "Filho do homem" e "semente do Filho do homem". Esta é a que o mundo chama de "a raça autêntica".
103    Estes são do lugar onde se encontram os filhos da câmara nupcial. A união é constituída neste mundo por homem e mulher, sede da força e da debilidade; no outro mundo a forma de união é muito diferente.
104    Nós os chamamos assim mas outras denominações superiores a qualquer dos nomes que se possam dar-lhes e superiores à [própria] violência. Os de lá não são um e outro, mas ambos são um só. O daqui é aquele que nunca poderá ultrapassar o sentido carnal.
105 Não é preciso que todos os que se encontram de posse do Todo se conheçam a si mesmos inteiramente. Alguns dos que não se conhecem a si mesmos não gozarão, é verdade, das coisas que possuem. Mas os que
houverem alcançado o próprio conhecimento, esses, sim, gozarão delas.
106    O homem perfeito não só não poderá ser detido como nem sequer poderá ser visto, pois se o vissem o reteriam. Ninguém estará em condições de conseguir de outra maneira esta graça, a [não] ser que se revista da luz perfeita e [se converta em homem] perfeito. Todo aquele que [se houver revestido dela] caminhará [...]: esta é a [luz] perfeita.
107    [E preciso] que nos façamos [homens perfeitos] antes de sairmos [do mundo]. Quem recebeu o Todo [sem ser senhor] destes lugares [não] poderá [dominar] naquele lugar; em vez disso, [irá parar no lugar] intermediário como imperfeito. Só Jesus conhece o fim deste.
108    O homem santo o é inteiramente, até mesmo no que toca a seu corpo, posto que se ao receber o pão ele o santifica — do mesmo modo que santifica o cálice ou qualquer outra coisa que recebe — como não fará santo também ao corpo?
109    Da mesma maneira que Jesus [fez] perfeita a água do batismo, também liquidou a morte. Por isso nós descemos — é verdade — até a água, mas não baixamos até a morte, para não ficarmos submersos no espírito do mundo. Quando este sopra faz sobrevir o inverno, mas quando é o Espírito que sopra faz-se verão.
110    Quem possui o conhecimento da verdade é livre; pois bem, quem é livre não peca, já que só peca quem é escravo do pecado. A mãe é a verdade, enquanto que o conhecimento é o pai. Aqueles aos quais não é permitido pecar, o conhecimento da verdade eleva os corações, isto é, os faz livres e os põe acima de todos os lugares. O amor,por seu lado, edifica, mas aquele que foi feito livre pelo conhecimento se faz de escravo por amor àqueles que ainda não chegaram a receber a liberdade do conhecimento; então este os capacita para fazer-se livres. [O] amor [não se apropria] de nada, pois como [irá apropriar-se de algo, se tudo] lhe pertence? Não [diz "isto é meu') ou "aquilo me pertence", [mas diz "isto é] teu".
111    O amor espiritual é vinho e bálsamo. Dele gozam os que se deixam ungir com ele, mas também aqueles que são alheios a estes, desde que os ungidos continuem [ao seu lado]. No momento em que os que foram ungidos com bálsamo deixarem de [ungir-se] e partirem, ficam exalando de novo mau odor os não ungidos que apenas estavam junto a eles. - O samaritano não deu ao ferido mais do que vinho e azeite. Isso outra coisa não é se não a unção. E [assim] curou as feridas, pois o amor cobre inúmeros pecados.
112    Os [filhos] que uma mulher dá à luz se parecem àquele que a ama. Se é o seu marido, parecem-se ao marido; se um adúltero, se parecem ao adúltero. Sucede também com freqüência que quando uma mulher se deita com seu marido por necessidade — enquanto seu coração está ao lado do adúltero com quem mantém relações — dá à luz o que tem de dar à luz com a aparência do amante. Mas vós, que estais em companhia do Filho de Deus, não ameis ao mundo e sim ao Senhor, de maneira que aqueles que vierdes engendrar não se pareçam com o mundo mas com o Senhor.
113    O homem copula com o homem, o cavalo com o cavá-lo, o asno com o asno: as espécies copulam com seus semelhantes. Desta mesma maneira se une o espírito com o espírito, o Logos com o Logos [e a luz com a luz. Se tu] te fazes homem, [é o homem quem te] amará; se te fazes [espírito], é o espírito que se unirá contigo; se te fazes como um dos de cima, são os de cima que virão repousar sobre ti; se te fazes cavalo, asno, cão, vaca, ovelha ou qualquer dos animais que estão fora e que estão abaixo, não poderás ser amado nem pelo homem, nem pelo espírito, nem pelo Logos, nem pela luz, nem pelos de cima, nem pelos do interior. Estes não poderão vir repousar dentro de ti e tu não farás parte deles.
114    Aquele que é escravo contra a sua vontade poderá chegar a ser livre. Aquele que depois de haver alcançado a liberdade pela graça do seu senhor se vendeu a si mesmo novamente como escavo, não poderá voltar a ser livre.
115    A agricultura [deste] mundo está baseada em quatro elementos: colhe-se partindo de água, terra, vento e luz. Também a economia de Deus depende de quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento, Nossa terra é a fé, na qual deitamos raízes; a água é a esperança, da qual nos [alimentamos]; o vento é o amor, pelo [qual] crescemos; a luz [é] o conhecimento, pelo [qual] amadurecemos.
116    A graça é [...] o lavrador são [...] por cima do céu. Bem-aventurado é aquele que não atribulou uma alma. Este é Jesus Cristo. Ele veio ao encontro de todos os lugares sem onerar a ninguém. Por isso é feliz aquele que é assim, pois é um homem perfeito, já que é o Logos.
117    Perguntai-nos a respeito dele, pois é difícil expô-lo adequadamente. Como seremos capazes de realizar esta grande obra?
118    Como se irá conceder descanso a todos? Antes de mais nada, não se deve causar tristeza a ninguém, grande ou pequeno, crente ou não crente. Depois, há que proporcionar descanso àqueles que repousam no bem. Há pessoas que podem proporcionar descanso ao homem de bem. Ao que pratica o bem não lhe é possível proporcionar descanso a estes, pois não está em suas mãos; mas tampouco lhe é possível causar tristeza, ao não dar oportunidade a que eles sofram angústia. Mas o homem de bem às vezes lhes causa aflição. E não é que o faça deliberadamente, mas é a sua própria maldade o que os aflige. Aquele que possui uma natureza adequada causa prazer a quem é bom, mas alguns se afligem por isso ao extremo.
119    Um chefe de família se proveu de tudo: filhos, escravos, [gado], cães, porcos, trigo, cevada, palha, feno, [ossos], carne e bolotas. Era inteligente e conhecia o alimento (adequado) para cada qual. Aos filhos ofereceu pão, [azeite e carne]; aos escravos, azeite de rícino [e] trigo; aos animais [deu cevada], palha e feno; [aos] cães, ossos; [aos porcos] deu bolotas e [restos de] pão. O mesmo ocorre com o discípulo de Deus: se é inteligente, compreende o que é ser discípulo. As formas corporais não serão capazes de enganá-lo; ele se fixará na disposição de ânimo de cada qual e [assim] falará com ele. Há muitos animais no mundo que têm forma humana. Se fores capaz de reconhecê-los, deitarás bolotas aos porcos, enquanto que ao gado darás cevada, palha e feno; aos cães, ossos, aos escravos distribuirás alimentos rudimentares e aos filhos, o perfeito.
120    Há um Filho do homem e há um filho do Filho do homem. O Senhor é o Filho do homem, e o filho do Filho do homem é aquele que foi feito pelo Filho do homem. O Filho do homem recebeu de Deus a faculdade de criar. E ele tem [também] a de engendrar.
121    Quem recebeu a faculdade de criar é uma criatura; quem recebeu a de engendrar é um engendrado. Quem cria não pode engendrar, quem engendra não pode criar. Costuma dizer-se que "quem cria engendra", mas o que engendra é uma criatura. Por [isso] os que foram engendrados por ele não são seus filhos, mas [...]. O que cria atua [visivelmente] e ele mesmo permanece oculto: [...] a imagem. Aquele que cria [o faz] abertamente, mas o que engendra [engendra] filhos ocultamente.
122    [Ninguém poderá] saber nunca qual é [o dia em que o homem] e a mulher copulam — fora deles mesmos —, uma vez que as núpcias d[este] mundo são um mistério para aqueles que tomaram mulher. E se o matrimônio da poluição permanece oculto, tanto mais constituirá verdadeiro mistério o casamento impoluto. Este não é carnal, mas puro; não pertence à paixão, mas à vontade; não pertence às trevas ou à noite, mas ao dia e à luz. Se a união matrimonial se realiza a descoberto, fica reduzida a um ato de fornicação. Não só quando a esposa recebe o sêmen de outro homem, mas também quando abandona a sua alcova à vista [de outros], comete um ato de fornicação. Só lhe é permitido mostrar-se ao seu próprio pai, à sua mãe, ao amigo do esposo e aos filhos do esposo. Estes podem entrar todos os dias na câmara nupcial. Os demais que se contentem com o desejo, ainda que apenas seja o de escutar sua voz e de gozar de seu perfume e de alimentar-se dos restos que caem da mesa como os cães. Esposos e esposas pertencem à câmara nupcial. Ninguém poderá ver o esposo e a esposa, a não ser que [ele mesmo] venha a sê-lo.
123    Quando a Abraão [foi dado] ver o que teve de ver, circuncidou a carne do prepúcio, ensinando-nos [com isso] que é necessário destruir a carne [...] do mundo. Enquanto suas [paixões estão escondidas], persistem e continuam vivendo, [mas se saem à luz] perecem, [a exemplo] do homem visível. [Enquanto] as entranhas do homem estão escondidas, o homem está vivo; se as entranhas aparecem e saem dele, o homem morrerá. O mesmo ocorre com a árvore: enquanto sua raiz está oculta, deita brotos e [se desenvolve], mas, quando sua raiz se deixa ver, a árvore seca. Acontece o mesmo com qualquer coisa que tenha chegado a ser [neste] mundo, não só de forma manifesta como também oculta: enquanto a raiz do mal está oculta, este se mantém for-te; assim que se revela se desintegra e — logo que se manifestou-se desvanece. Por isso diz o Logos: "Já está posta a acha na raiz da árvore". Esta não podará, [pois] o que se poda brota de novo, mas cavará até o fundo, até arrancar a raiz. Mas Jesus arrancou de todo a raiz de todos os lugares, enquanto que outros [o fizeram unicamente] em parte. No que se refere a nós, todos e cada um devemos socavar a raiz do mal que está em cada qual e arrancá-la inteiramente do coração. Erradicamos [o mal] quando o conhecemos, mas, se não nos dermos conta dele, deita raízes em nós e produz seus frutos em nosso coração; assenhoreia e sede nós e faz-nos seus escravos; tem-nos presos em suas garras para que façamos aquilo que [não] queremos e [omitamos] aquilo que queremos; é poderoso porque não o reconhecemos e enquanto [está ali] continua agindo. A ignorância [é sua mãe [...]; a ignorância [está ao serviço de [...]; o que provém [dela] nem existe, nem [existe], nem existirá. [Mas aqueles que vêm da verdade] alcançarão sua perfeição quando toda a verdade se manifestar. A verdade é como a ignorância: se está escondida, descansa em si mesma; mas se se manifesta e é reconhecida, será objeto de louvor porque é mais forte do que a ignorância e do que o erro. Ela dá a liberdade. Já disse o Logos: "Se reconhecerdes a verdade, a verdade vos fará livres." A ignorância é escravidão, o conhecimento é liberdade. Se reconhecermos a verdade encontraremos os frutos da verdade em nós mesmos; se nos unirmos a ela, nos trará a plenitude.
124    Agora estamos de posse do que é manifesto dentro da criação e dizemos: "Isto é o só-lido e o cobiçável, enquanto que o oculto é débil e digno de desprezo". Assim ocorre com o elemento manifesto da verdade, que é débil e desprezível, ao passo que o oculto é o sólido e digno de apreço. Manifestos são os mistérios da verdade à maneira de modelos e imagens, ao passo que o quarto nupcial — que é o Santo dentro do Santo
— mantém-se oculto.
125    O véu ocultava no princípio a maneira como Deus governava a criação; mas quando se rasgar e aparecer o interior, esta casa ficará deserta, ou melhor, será destruída. Mas a divindade, em seu conjunto, não abandonará estes lugares [para ir-se] ao Santo dos Santos, pois não poderá unir-se com a [luz acrisolada] nem com a Pleroma sem [mácula]. Ela se [refugiará] melhor sob as asas da cruz e [sob seus] braços. A arca [lhes] servirá de salvação quando o dilúvio de água irromper sobre eles. Os que pertencerem à linhagem sacerdotal poderão penetrar na parte interior do véu com o Sumo Sacerdote. Por isso rasgou — se aquele não só pela parte superior, pois [senão] só se haveria aberto para os que estavam acima; nem tampouco se rasgou unicamente pela parte inferior, porque [senão] apenas se haveria mostrado aos que estavam abaixo. Mas rasgou-se de alto a baixo. As coisas de cima nos ficaram visíveis a nós que estamos embaixo, para que possamos penetrar no recôndito da verdade. Isso é realmente o apreciável, o sólido. Mas nós havemos de entrar ali através de debilidades e de símbolos desprezíveis, pois não têm valor algum diante da glória perfeita. Há uma glória acima da glória e um poder acima do poder. Por isso nos foi dado patentear o perfeito e o segredo da verdade. E o Santo dos Santos se [nos] manifestou e a câmara nupcial nos convidou a entrar.
Enquanto isto permanece oculto, a maldade está neutralizada, se bem que não tenha sido expulsa da semente do Espírito Santo, [pelo que] eles continuam sendo escravos da maldade. Mas quando isto se manifestar, então se derramará a luz perfeita sobre todos os que se encontrarem nela e [receberão] a unção. Então ficarão livres os escravos e os cativos serão redimidos.
126    [Toda] planta que [não] haja sido plantada por meu Pai que está nos céus [será] arrancada. Os separados serão unidos [e] cumulados. Todos os que [entrarem] na câmara nupcial irradiarão [luz], pois eles [não] engendram como os matrimônios que [...] atuam na noite. O fogo [brilha] na noite e se apaga, mas os mistérios destas bodas se desenvolvem de dia e [em plena] luz. Este dia e seu fulgor não têm ocaso.
127    Se alguém se faz filho da câmara nupcial, receberá a luz. Quem não a recebe enquanto se encontra nestas paragens, tampouco a receberá em outro lugar. Quem recebe essa luz não poderá ser visto nem detido, e ninguém poderá molestá-lo enquanto viver neste mundo o mesmo quando houver saído dele, [pois] já terá recebido a verdade em imagens. O mundo se converteu em éon, pois o éon é para ele plenitude, o é desta forma: manifestando-se a ele exclusivamente, não oculto nas trevas e na noite, mas oculto em um dia perfeito e em uma luz santa.